O Passado não nos define

Muitas de nós reconhecemos nas nossas filhas ou filhos as nossas características. Não talvez as nossas características agora, mas as de quando tínhamos a idade deles. Isto leva-nos a recordar o quanto algumas coisas na nossa infância nos marcaram.

Sempre considerei esta memória presente da minha infância e juventude uma mais valia. Foi muito útil, principalmente no meu percurso como formadora e professora de jovens. O não falar do alto da minha experiência de vida mas conseguir aproximar-me deles com a compreensão de quem já teve a mesma idade que eles, ajudava muito à comunicação e entendimento.

Lembro-me que quando era pequena, apesar de ser uma aluna mediana, não gostava de ler livros com muito texto. A minha mãe incentivava bastante a que eu e o meu irmão lêssemos. Mas enquanto o meu irmão devorava com rapidez livros grandes e pequenos em diversas línguas, eu preferia banda desenhada com pouco texto para ler.

Lembro até hoje o desapontamento da minha mãe por eu só ter lido os livros dos Cinco e dos Sete da Enid Blyton por volta da adolescência. Ela não fazia por mal, mas acabou por ser esta pressão dela que me convenceu desde cedo que eu lia mal, era preguiçosa para ler e, de alguma forma incapaz, no que respeitava à leitura.

Na altura eu não liguei muito ao assunto, mas mais tarde apercebi-me do quanto isso me tinha levado a passar a mim mesma um atestado de incapacidade literária.

Ironias da vida, acabei por ir para letras, mesmo temendo sempre que nenhum professor me pedisse para ler em voz alta. Escusado será dizer que quando o faziam eu ficava super nervosa e acabava por ter alguns engasgos na leitura, confirmando a minha crença. Quando a cabeça não trabalha a nosso favor estas coisas acontecem.

Durante o curso secundário e superior acabei por concluir que não só gostava de ler, como era uma leitora bastante eficiente em diversas línguas. Deixei o meu gosto pela leitura crescer, bem como a sede por conhecimento.

Curiosamente só quando tive o meu filho deixei de me preocupar com o facto de ler bem ou mal em voz alta. Era hábito nosso ler um pouco antes de deitar e dei por mim a perceber que afinal não havia nada de errado com a minha leitura, quando não preocupava com isso.  Anos mais tarde até me voluntariei para ler histórias na creche da minha filha.

Atualmente, leio muito, pesquiso muito e adoro ler em voz alta. E só por ver a minha filha a oferecer-se para ler nas aulas online me lembrei dos complexos que tinha quando era pequena.

Felizmente a forma como crescemos não nos define como pessoas. Todos temos experiências diferentes e hoje, como mãe, dou por mim a cometer alguns dos erros que a minha mãe cometeu comigo, ao tentar motivar-me e impulsionar-me.

Eu também procuro incentivar os meus filhos a darem o melhor de si, a não se contentarem com a “lei do menor esforço”. Mas, por vezes, dou por mim a dizer frases que podem ter o mesmo impacto neles como as da minha mãe tiveram em mim.  Resta-me tentar aprimorar a caminhada e a comunicação, não me esquecer de como era quando tinha a idade deles e corrigir a rota como mãe sempre que consigo.

Não somos mães perfeitas, mas, eu acredito que, enquanto quisermos melhorar, estaremos no bom caminho para o sermos. Os nossos filhos sentir-se-ão inspirados e crescerão connosco e para além de nós.

Fiquem bem e sejam felizes

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